|
Consultor, professor de Língua Portuguesa e advogado em São Paulo
Precisam-se de overloquistas com prática". Notei esta mensagem emoldurada e presa aos muros de uma fábrica perto da estação do metrô. Está lá há meses. Confesso que não tenho a menor idéia do que seja uma overloquista. Entretanto, causa-me des-conforto observar o verbo "precisar" utilizado no plural nesse caso. Há erro grave de concordância verbal visto que "overloquistas" não representa o papel de sujeito da oração. Trata-se de mero objeto indireto. Incorreta, pois, a concordância empregada. Embora o Latim elaborasse normalmente a voz passiva com verbos transitivos indiretos e intrasitivos para indicar a impessoalidade, ou seja, para indeterminar o sujeito. Hoje, tal voz verbal é exclusividade de verbos transitivos diretos (alguns gramáticos reconhecem exceções como, por exemplo, o verbo "obedecer", transitivo indireto). Corretas estarão as orações: vende-se casa; consertam-se relógios; afiam-se fa-cas e tesouras. Tais orações apresentam os substantivos "casa"; "relógios"; "facas e tesouras", respectivamente, exercendo função de su-jeitos das orações passivas. Reclamam, então, que se efetive a concordância devida. No caso inicial, a indeterminação do sujeito (a partícula "se" classifica-se gramaticalmente como índice de indeterminação do sujeito) obriga-nos a manter, por força da regra gramatical, o verbo na terceira pessoa do singular. Logo, temos: precisa-se de overloquistas com prática. Método seguro, amigos, para não errar é observar a regência do verbo. Se o verbo utilizado não for transitivo direto, devemos ter a partícula "se" funcionando como índice de indeterminação do sujeito, portanto, verbo na terceira pessoa do singular. É o caso de orações como: depende-se de verbas acessórias; na África, morre-se de fome e de doenças. Caso diverso, verbo transitivo direto, a partícula "se" exercerá função de partícula apassivadora e haverá necessidade de concordância do verbo com o res-pectivo sujeito da voz passiva, como nas orações: alugam-se quartos; reformam-se chapéus. Há outro caso a que mesmo o falante e o escritor descompromissados devem estar atentos. Trata-se do emprego do verbo "fazer" e, principalmente, do "haver". Entre ou-tras peculiaridades, o primeiro, quando vinculado à noção temporal, evidencia uma oração sem sujeito (coisa, até certo ponto, rara em português). Temos, pois, um verbo impessoal. Exige-se, como manda o figurino gramatical, o seu uso na terceira pessoa do singular. Sendo assim, diremos: faz quinze dias que não nos vemos; faz três meses que não vou a Campos do Jordão; faz dois mil e quatro anos que Jesus nasceu em Belém. O mesmo ocorre com o verbo "haver". Todavia, a sua impessoalidade estende-se a outros casos além do mencionado em relação ao "fazer". Envolvendo a noção temporal, afirmaremos: há dias que não me alimento; há anos que ele partiu e jamais voltou. Verifica-se também a ausência do sujeito e o conseqüente imperativo de uso do verbo na terceira pessoa do singular em orações em que tal verbo é empregado como sinônimo de "existir". Por exemplo: há muitas pessoas na sala; há regras a cumprir. Como equivalente a "ocorrer" ou "acontecer", temos: houve muitos casos de insuficiência respiratória neste inverno; certamente, haverá momentos de lucidez durante a reunião. E, amigos, em tempo! Cuidado com o uso das locuções verbais. A regra de concordância a ser respeitada é a mesma. Asseveremos, por exemplo: deve fazer mil anos que não ocorre um terremoto nesta área; pode haver muitos interessados na compra do imóvel. Nossos artigos e comentários têm a pretensão de servir também como um auxiliar prático na hora do aperto. Sendo assim, se o meu leitor olhar para o lado de sua mesa de trabalho e vir gravado, em letras garrafais, na porta da sala de seu chefe: "É proibido a entrada". Não se desespere. Trata-se de simples lembrete aos incautos que o procuram para pedir aumento de salário. Recomendo cautela. E uma pequena dose, antes até da coragem necessária para a dura empreitada, de discernimento. Vamos a ela. Em orações em que empregamos o verbo "ser" tomado em sua generalidade sem que haja qualquer de-terminante, o adjetivo (no caso, "proibido"), atuando como predicativo, há de permanecer na forma neutra (no gênero masculino, portanto). Assim temos: água é bom para a saúde; paciência é necessário. Ou: proibida entrada. Entretanto, se tais substantivos apresentarem-se determinados pela presença do artigo (ou por termo equivalente. Um pronome demonstrativo, por exemplo), o predicativo deverá com eles concordar. Observe a diferença. A paciência é necessária para a solução de tais problemas. A água da serra é boa para a saúde. Ou: é proibida a entrada de pessoas estranhas. De posse de tal informação, caro leitor, tente sua sorte. Bata à porta e consulte seu chefe. Invoque-o: senhor, senhoria (falarei sobre o emprego dos pronomes de tratamento a seguir), o que for preciso! Indague-o a respeito da possibilidade de um aumento salarial. E, caso ele conceda, diga-lhe: muito obrigado, meu caríssimo leitor. Ou: muito obrigada, minha caríssima leitora. O termo "obrigado", em tal construção gramatical, é sinônimo de "agradecido". Trata-se, pois, de um adjetivo e que há de concordar com quem o profere. O mesmo sucede com os vocábulos "anexo"; "apenso"; "leso"; "incluso"; e tantos outros. São igualmente adjetivos e devem ajustar-se em gênero e número com os respectivos substantivos. Diga com convicção: seguem anexas (ou apensas) as chapas dos exames; o rapaz incauto cometeu crime de lesa-majestade; vão inclusos os diagnósticos médicos. E assim por diante. Mas há uma ressalva. A palavrinha "alerta". Ainda que consagrados dicionaristas, como Houaiss, e renomados gramáticos, como Napoleão Mendes de Almeida, afirmem que tal palavra pode ser empregada ora como advérbio, significando "atentamente"; ora como adjetivo, significando "vigilante", "atento". Preferível utilizá-lo apenas como advérbio em razão da ascendência fran-cesa do vocábulo. Meus caros leitores, aceitem esta recomendação: advérbios são palavras que jamais sofrem flexão. Portanto, digam sem medo de errar: Estou sempre alerta. Os bombeiros estão sempre alerta. Não esqueçam! Por fim, falemos um pouco a respeito do uso dos pronomes de tratamento. Meus amigos, por certo, conhecem o pronome de tratamento "você". Singela manifestação de intimidade cotidiana. Porém talvez não saibam que o dito pro-nome de tratamento apresenta uma origem, digamos, meio-nobre. Ele nos remete ao pronome, muito empregado no Brasil colônia, "vossa mercê". Ao longo do tempo, tal pronome foi sofrendo algumas alterações gráficas. Ou melhor, foi na verdade, encolhendo! Talvez por interferência da famosa lei do menor esforço. O fato é que chegamos ao atual e inocente "você" (lá pelas Alterosas, já está no "cê"). O que nos interessa no presente momento é estabelecer seu devido emprego. Então, faço a seguinte pergunta. Em que pessoa devemos utilizar o verbo quando empregamos o referido pronome? Meu amigo solícito e cooperativo responderá de pronto. Na terceira pessoa, ora! De fato. Mas meu solerte leitor deve estar atento, pois a mesma postura manifestar-se-á em relação aos demais pronomes de tratamento. Observa-se comumente, e às vezes até em textos oficiais, esta construção: Vossa Santidade sois o maior representante do papado moderno. Ou Vossa Senhoria estais incomodado com o barulho? E durma-se com um tal barulho! É imperativo que sejamos corretos com o uso de tais pronomes, bem como com as pessoas referidas. Digamos: Vossa Santidade é o maior representante do papado moderno. Vossa Senhoria es-tá incomodado com o barulho? E assim por diante. Uma
observação final. Os pronomes acessórios que acompanham
os de tratamento também devem ser utilizados na terceira pessoa.
Assim, imaginemos uma hipotética situação. Fomos
apresentados à rainha da Inglaterra. E enquanto "batemos uma
caixa" com a monarca, diremos respeitosamente: Vossa Majestade é
grandiosa. Trazemos um forte abraço de seus (e não vossos)
amigos do Brasil. Por certo, faremos o maior sucesso. E mais uma vez tenho
dito!
|