OUTUBRO
DE 2004
NÚMERO 45
ANO 4
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Economista, coordenadora acadêmica do MBA em Economia e Gestão das organizações de Saúde da PUC=SP
Médico, coordenador técnico do MBA em Economia e Gestão das Organizações de Saúde da PUC-SP
MBA
 
Maria Cristina Amorim e Eduardo Perilo







O mundo do trabalho no século 21

Cash-flow, demanda agregada, Balanced Scorecard, custo marginal, hedge, res-ponsabilidade solidária, coaching, gestão por competência, avaliação 360º, disease management. Isso tudo faz sentido para você?

Esse conjunto de termos técnicos teima em fazer parte do cotidiano dos profissionais da saúde. Trata-se de uma evidência do quanto o segmento está sob pressão da chamada racionalidade do capital: identificar e controlar processos, instituir formas de aumentar a produtividade do trabalho, perseguir metas e buscar excedente financeiro. Mesmo as organizações sem fins lucrativos, mesmo as públicas, são indiretamente pressionadas para o mesmo padrão de funcionamento.

O profissional da saúde é pressionado para a atualização técnica e para o desenvolvimento de competências comportamentais. É preciso adquirir novas habilidades, não aprendidas no curso de graduação. Aparentemente, tudo quanto sabemos é rapidamente ultrapassado pela última idéia nascida nos EUA e rapidamente veiculada localmente. Em parte isso é verdade; em parte, podemos ser vítimas da informação que manipula e satura e por isso mesmo reduz nossa capacidade de intervir equilibradamente na realidade das organizações. O antídoto para esta poluição informacional é compreender de maneira mais ampla e mais crítica o que acontece com o trabalho no século XXI, no mundo, no Brasil e no segmento da saúde.

No final da década de 80 identifica-se uma nova divisão do trabalho. Uma pequena elite empregada formalmente em setores de lucratividade geral crescente, alvo de benefícios vários, bem qualificada e "global". Um segundo grupo de trabalhadores com inserção precária e intermitente na população economicamente ativa, sem os benefícios e a qualificação do primeiro grupo e com renda média inferior. Na base, um mar de desempregados, a um passo da marginalidade (v. Condição Pós-moderna, de David Harvey, publicado pela Loyola, em 1989). No século XXI, no Brasil, identificamos um conjunto de pessoas trabalhando em setores de ponta (quanto à incorporação de tecnologia, à taxa média de lucro e à qualificação da mão-de-obra), outro em setores precários, outro na informalidade e outro na ilegalidade (v. O que acontece com o trabalho, de Ladislau Dowbor, editado pelo Senac, em 2001).

Setores de ponta, precários, informais e ilegais se articulam de um modo ou outro. Assim, estabelecimentos de saúde de ponta, muitas vezes, têm profissionais terceirizados ou cooperativados que fazem parte do setor precário. Estes, por sua vez, talvez se abasteçam de serviços ou produtos oriundos do setores informais, que podem se ligar ao setor ilegal. Não estamos sugerindo que organizações de prestígio estejam envolvidas com organizações de histórico duvidoso, mas chamando atenção para a complexi-dade do tecido social no qual vivemos nosso cotidiano profissional.

Os sonoros nomes técnicos aos quais aludimos no primeiro parágrafo revelam as inexoráveis mudanças no setor da saúde, mas também podem induzir à idéia de que a realidade do trabalho é homogênea, que a última ferramenta de gestão é a melhor, quaisquer que sejam as pessoas, a cultura institucional e o contexto econômico.

Não se fala mais em trabalhadores, em mão-de-obra, ou mesmo em funcionários: agora vivemos um mundo de colaboradores, parceiros etc. O uso desses novos nomes não é ingênuo, busca ocultar as tensões inevitáveis entre os interesses da organização e do indivíduo, do capital e do trabalho, como se não existissem hierarquia, relações de poder, controladores e controlados em todas as organizações.

A vida do profissional de recursos humanos nunca foi fácil no Brasil. Pesam a cultura de casa-grande e senzala, para a qual o investimento em pessoas é apenas um custo a ser evitado e o desemprego crônico, tornando as pessoas facilmente substituíveis. Nublar este contexto por meio de expressões edulcoradas não ajuda a resolver os problemas da organização e também não ajuda o desempenho do indivíduo a virtude está em reconhecer as contradições e procurar o equilíbrio, sempre provisório, entre as partes.

A vida profissional de todos nós está particularmente dura nesse início de milênio: à massa de desempregados corresponde o aumento da produtividade do trabalho da par-cela ocupada. Ou seja, estamos, sim, trabalhando cada vez mais, mais horas e mais intensamente nessas horas. A necessidade de atualização das competências para o trabalho é real mas não podemos perder de vista tanto o contexto mundial e local, quanto as especificidades da realidade: Balance Scorecard pode não servir para todos, desconfie das receitas prontas.

O mundo do trabalho passa por um doloroso momento de elevação de desemprego, no qual as diferenças de oportunidade e de inserção social são crescentemente agudas. O segmento da saúde no Brasil é extremamente heterogêneo quanto à constituição das organizações e suas respectivas culturas. Por mais intenso que seja o bombardeio dos rótulos, convém não desistir da posição crítica: se as contas a pagar e receber ainda são ordenadas por pastas suspensas, ou quando muito, por meio da 'planilha eletrônica", se você julga que sua formação na área da saúde é suficiente para gerir organizações inseridas no capitalismo da terceira revolução industrial, é recomendável atualizar a tecnologia e a competência individual. Se você acredita que basta comprar o último modelo de software de gestão para aumentar a lucratividade do seu negócio, recomenda-se cultivar posturas mais críticas.

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