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Antropólogo e pós-doutorado em macroeconomia.
Pesquisa realizada pela Interscience e apresentada durante o 10 Congresso Brasileiro de Pesquisa (março 2003) nos mostra que o brasileiro tem valores fortes que nem sempre compreendemos. Será realmente verdade que o brasileiro valoriza honestidade, verdade, confiança, respeito ao outro, limpeza em todos os lugares, por exemplo? Como antropólogo tenho sido chamado a dar uma "explicação" para esse fenômeno. Os valores revelados pela pesquisa não condizem com a realidade percebida por nós no cotidiano. Por quê? Estará a pesquisa errada? Na minha opinião a pesquisa está corretíssima! A
explicação é ao mesmo tempo simples e complexa e
exige um pouco de reflexão sobre o Brasil e a cultura brasileira.
É preciso que saibamos que nós, brasileiros, não
temos os quatro séculos de tradição escrita de Gutenberg,
o inventor da imprensa no século XV. O brasileiro eu sempre tentei
explicar isso a alunos e clientes é oral e auditivo. Sem a tradição
escrita que a Europa e, por história de colonização,
os Estados Unidos possuem, nos mantivemos "tribais" (no sentido
de uma civilização oral e não visual). Mário
de Andrade dizia que "o escritor brasileiro fala com a pena na mão".
Assim, nas sociedades visuais, o indivíduo tem força perante o gru-po. Nas sociedades orais e auditivas a força do grupo sobre o indivíduo é tão forte que podemos classificá-la, sem exagero, de quase insuperável. Assim a força do grupo sufoca os valores individuais no Brasil. E assim temos muita dificuldade em emitir comportamentos individuais "certos". Quem busca fazer as coisas de forma certa, correta, ética, é logo acusado de "certinho" ou "certinha" e ridicularizado pelo grupo. Portanto, os valores individuais pes-quisados são mesmo os revelados pela pesquisa. Por isso ficamos indignados com a sujeira e quando vemos um lugar limpo e bem cuidado dizemos: "Que coisa linda! Nem parece o Brasil!". "Eu não jogo papel no lixo porque ninguém joga papel no lixo! Quando todo mundo jogar papel no lixo eu também jogarei papel no lixo. Eu não jogo porque ninguém joga e eu não quero dar uma de herói e babaca...", etc, etc. E
com esse impedimento de manifestar seus valores individuais, o brasileiro
é complacente com o erro, com a desídia para não
ofender o grupo. E essa complacência reforça nossos comportamentos
contrários a nossos valores individuais. O que fazer? Minha sugestão
é a de que passemos a criar, em nossas famílias, escolas,
empresas, ambientes que permitam a manifestação dos nossos
valores individuais. Para isso temos que punir a impunidade. Valorizar
o valor. Dar crédito aos críveis. Referendar o certo e repreender
severamente o erro. É preciso dar ao brasileiro o direito de ser
"certo" ou "certa". Eis aí uma tarefa para
cada um de nós pais, professores, empresários, políticos,
líderes em geral. Acredite: os valores do homem brasileiro são
os revelados pela pesquisa. Nossa tarefa como indivíduos, como
povo e como nação é a de permitir que eles sejam
manifestos sem constrangimento. E aí teremos o País que
tanto sonhamos. E aí seremos felizes e orgulhosos do Brasil. Pense
nisso. |