OUTUBRO
DE 2004
NÚMERO 45
ANO 4
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MOTIVAÇÃO
 
Luiz Marins
Antropólogo e pós-doutorado em macroeconomia.





Quem tem medo de ser "certinho
" no Brasil?

Nossa tarefa é permitir que eles se manifestem sem constrangimento

 

Pesquisa realizada pela Interscience e apresentada durante o 10 Congresso Brasileiro de Pesquisa (março 2003) nos mostra que o brasileiro tem valores fortes que nem sempre compreendemos. Será realmente verdade que o brasileiro valoriza honestidade, verdade, confiança, respeito ao outro, limpeza em todos os lugares, por exemplo? Como antropólogo tenho sido chamado a dar uma "explicação" para esse fenômeno. Os valores revelados pela pesquisa não condizem com a realidade percebida por nós no cotidiano. Por quê? Estará a pesquisa errada? Na minha opinião a pesquisa está corretíssima!

A explicação é ao mesmo tempo simples e complexa e exige um pouco de reflexão sobre o Brasil e a cultura brasileira. É preciso que saibamos que nós, brasileiros, não temos os quatro séculos de tradição escrita de Gutenberg, o inventor da imprensa no século XV. O brasileiro eu sempre tentei explicar isso a alunos e clientes é oral e auditivo. Sem a tradição escrita que a Europa e, por história de colonização, os Estados Unidos possuem, nos mantivemos "tribais" (no sentido de uma civilização oral e não visual). Mário de Andrade dizia que "o escritor brasileiro fala com a pena na mão".

As civilizações letradas pela imprensa de Gutenberg criaram o "indivíduo" e o individualismo como valor. É preciso lembrar que quando as palavras são escritas elas se tornam parte do mundo visual, estático. A palavra oral é sempre dirigida ao "outro". Assim, para ler eu tenho que me isolar. Para falar e ouvir, tenho que me "reunir" com alguém.

Assim, nas sociedades visuais, o indivíduo tem força perante o gru-po. Nas sociedades orais e auditivas a força do grupo sobre o indivíduo é tão forte que podemos classificá-la, sem exagero, de quase insuperável. Assim a força do grupo sufoca os valores individuais no Brasil. E assim temos muita dificuldade em emitir comportamentos individuais "certos".

Quem busca fazer as coisas de forma certa, correta, ética, é logo acusado de "certinho" ou "certinha" e ridicularizado pelo grupo. Portanto, os valores individuais pes-quisados são mesmo os revelados pela pesquisa. Por isso ficamos indignados com a sujeira e quando vemos um lugar limpo e bem cuidado dizemos: "Que coisa linda! Nem parece o Brasil!". "Eu não jogo papel no lixo porque ninguém joga papel no lixo! Quando todo mundo jogar papel no lixo eu também jogarei papel no lixo. Eu não jogo porque ninguém joga e eu não quero dar uma de herói e babaca...", etc, etc.

E com esse impedimento de manifestar seus valores individuais, o brasileiro é complacente com o erro, com a desídia para não ofender o grupo. E essa complacência reforça nossos comportamentos contrários a nossos valores individuais. O que fazer? Minha sugestão é a de que passemos a criar, em nossas famílias, escolas, empresas, ambientes que permitam a manifestação dos nossos valores individuais. Para isso temos que punir a impunidade. Valorizar o valor. Dar crédito aos críveis. Referendar o certo e repreender severamente o erro. É preciso dar ao brasileiro o direito de ser "certo" ou "certa". Eis aí uma tarefa para cada um de nós pais, professores, empresários, políticos, líderes em geral. Acredite: os valores do homem brasileiro são os revelados pela pesquisa. Nossa tarefa como indivíduos, como povo e como nação é a de permitir que eles sejam manifestos sem constrangimento. E aí teremos o País que tanto sonhamos. E aí seremos felizes e orgulhosos do Brasil. Pense nisso.

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