AGOSTO/SETEMBRO
DE 2003
NÚMERO 42
ANO 4
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Paulo Celestino

O caminho da profissionalização

Há cerca de 30 anos, o então presidente Emílio Médici assinava a autorização para o funcionamento da primeira faculdade de administração com habilitação específica para a administração de hospitais no Brasil. Poucos meses antes, o Conselho Federal de Educação aprovara a criação do curso de administração hospitalar. Abria-se uma página fundamental no livro da história da saúde no país. Desde então, os tais cursos se espalharam pelo país em um ritmo constante. Hoje, são 32 faculdades auto-rizadas pelo Ministério da Educação (MEC) a oferecer a habilitação.

A tendência é de crescimento ainda maior. Regiões como Nordeste e Norte ainda são díspares na presença de cursos que ofereçam a formação adequada. Mesmo no Sul e Sudeste, onde surgiram e estão as principais faculdades específicas da área, a demanda pelos profissionais especializados está em alta. Isso leva à profissão se consolidar como promissora, com boas chances de crescimento e de bons salários. Apesar de contar com uma rica e dedicada história construída pelos seus pioneiros, especialistas da área e estudantes avaliam a atual formação do administrador hospitalar e criticam seus caminhos. Para eles, as instituições de ensino ainda têm o que agregar.

Um dos motivos pelo aumento na demanda pelos cursos de administração hospitalar é a busca pela profissionalização. A sobrevivência hoje no mercado, seja em qualquer área, depende de diferenciais competitivos. Devido a um ambiente de rápidas mudanças e acirradas disputas, pessoas à frente de qualquer instituição têm de estar preparadas e contar com conhecimentos e informações prévias para tomar decisões acertadas. E isso tem resultado na procura por uma formação mais só-lida nos bancos das universidades. Pode-se dizer ainda que há mais gente concluindo o ensino médio, provocando demandas pelos cursos de graduação em todas as áreas.

Mas no caso da administração hospitalar há uma carência real e concreta constatada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Uma pesquisa rea-lizada pelo órgão em uma amostra de mais de 100 hospitais filantrópicos distribuídos em 14 estados e 84 municípios constatou que o setor apresenta "padrão incipiente de gestão", com instrumentos e práticas gerenciais defasados em relação aos padrões gerenciais contemporâneos. "Certamente, estas atuais condições, senão já comprometem seus resultados, muito certamente põem em risco o futuro de boa parte do parque", afirma o relatório do BNDES. Para mudar esse quadro e evitar um colapso da rede, o banco sugere "incentivos à maior profissionalização da gestão, com incorporação de novos instrumentos e capacitação profissional".
Fiorentini: criatividade e visão

A avaliação feita no relatório não diz respeito apenas ao universo dos hospitais filantrópicos e pode ser estendida aos outros estabelecimentos hospitalares, garante o presidente do Federação Brasileira dos Admi-nistradores Hospitalares (FBAH), Paulo Segatelli Camara. Uma das primeiras medidas rumo à maior profissionalização da área já foi tomada. O Ministério da Saúde pu-blicou no ano passado a portaria nº 2.225. A partir dela, os hospitais vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS) devem ter em seus quadros profissionais com curso de administração hospitalar ou especialistas de acordo com a complexidade de cada unidade. O prazo para adequação de todos os estabelecimentos é dezembro de 2004. Camara avalia que a portaria, criada a partir de uma consulta pública, dá o primeiro passo para a profissionalização do setor.

De acordo com a complexidade da unidade, são exigidos cursos de aperfeiçoamento de 180 horas/aula ou até mesmo o bacharelado em administração hospitalar ou admi-nistração com especialização de 360 horas em administração hospitalar. Segundo Camara, um ponto positivo é que ela não se restringe apenas aos quadros de direção geral e se estende a outros profissionais das equipes dos hospitais como os diretores administrativos e técnicos. Para o presidente da FBAH, o ideal seria que fosse exigido a graduação em todos os estabelecimentos e níveis. Porém, ele acredita que a atual portaria será cumprida a tempo pelos hospitais. "Depois podemos ir em busca de maiores exigências", diz.

As entidades de ensino já estão levando em consideração a medida e vêm incluindo a habilitação de administração hospitalar ou criando cursos de especialização nos seus quadros. Aquelas que já possuem o curso há mais tempo vêm ampliando o número de vagas nos últimos anos e também estão realizando cursos de extensão e aperfeiçoamento em ou-tras cidades. A Universidade São Camilo, por exemplo, a segunda instituição mais antiga do setor, dobrou o número de vagas para o seu curso de bacharelado há quatro anos. De 50 passou a oferecer 100 vagas. O Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Pesquisas Hos-pitalares (IPH), primeira faculdade de administração hospitalar criada no Brasil há três décadas, também constata o aumento na demanda, inclusive pela concorrência no caso dos cursos de aperfeiçoamento. "Chegamos a desistir de realizar cursos em outras cidades porque há duas ou mais instituições já oferecendo especializações e cursos de aperfeiçoamento", explica Jarbas Kar-man, diretor do IPH.

A busca pela profissionalização tem levado a formação de um perfil de alunos diferente das outras áreas de ensino. Segundo a coordenadora do curso de administração hospitalar da Faculdade São Camilo de Administração Hospitalar, Cláudia Raffa, cerca de 80% dos alunos já trabalham na área da saúde. Dentro desse universo há uma boa porcen-tagem de alunos graduados como médicos e enfermeiras, mas é forte a presença de alunos em outras atividades hospitalares. O motivo de cursarem administração hospitalar seria a busca por uma melhor recolocação no mercado. "A legislação está fa-vorável e o campo de trabalho está crescendo cada vez mais", reforça a coordenadora.

Se por um lado, as instituições de ensino podem embarcar na onda da legislação e aumentar a oferta de vagas e de cursos, por outro o au-mento da qualidade dos cursos deve ser uma preocupação do futuro administrador hospitalar. Para o padre Niversindo Cherubin, um dos pioneiros da criação dos cursos de administração hospitalar na país, o ensino em geral é fraco. Ele alega que os cursos ainda têm dificuldade de passar para os seus alunos toda a complexidade do saber necessário para administrar um hospital.
Cardoso: fundamentos iguais.

As notas do provão do MEC até poderiam confirmar essa avaliação. Os cursos, inclusive os mais tradicionais, vêm tirando notas C e D. Poucos se destacam com a nota A. Mas as instituições são rápidas para rebater a situação negativa. Para elas, o MEC está prejudicando a formação do administrador hospitalar ao não levar em conta as especificidades do específicas da área hospitalar.

Um dos diretores do IPH, Domin-gos Fiorentini, avalia que as institui-ções tiveram de se render ao exame do MEC. Para ele, o exame serve apenas para efeito de marketing para as escolas e se torna míope para en-xergar como está realmente o ensino no país. O Ministério da Educação alega que o provão foi um instrumento criado pelo governo anterior e estava esperando para o final de agosto (antes do fechamento desta edição) um relatório da Comissão Especial de Avaliação da Educação Superior, propondo um novo modelo de aferição.

O presidente do Conselho Regio-nal de Administração de São Paulo (CRA-SP), Roberto Carvalho Cardo-so, considera os argumentos infundados. Ele avalia que os cursos vêm suprir uma lacuna que existe, mas as instituições ainda encontram problemas na formação dos seus profissionais. Para ele, o provão tem o caráter de avaliar a área do conhecimento e não a especificidade do curso. Ele considera até mesmo impraticável realizar um exame específico para cada área. "Os fundamentos da administração são os mesmos para qualquer habilitação", rebate. Mesmo assim, Cardoso afirma que qualquer avaliação nunca será perfeita. "Os cursos têm que melhorar sempre", completa.

Outro item que merece muita atenção dentro da grade dos cursos de administração hospitalar é o estágio obrigatório supervisionado. Todos, alunos e educadores, defendem a importância dessa ferramenta e até acham pouco as 300 horas exigidas para a certificação do diploma. O estágio, além de funcionar como porta para o primeiro emprego, dá ao futuro administrador uma oportunidade de viver os problemas reais do dia-a-dia e integrar a teoria à prática. "A carga horária como está hoje limita as possibilidades da formação mais completa de um admi-nistrador hospitalar", ressalta padre Cherubin.
Cherubin: ensino é fraco.

O administrador hospitalar Marce-lo Bittencourt, do Hospital Bandeirantes, na capital paulista, relembra sua experiência quando ainda estudava na Faculdade São Camilo e defende o estágio integral. "É a melhor forma para a qualificação do profissional", diz. Ele coloca que os hospitais deveriam voltar a adotar o procedimento ou, no mínimo, aceitar mais os novos profissionais. Há cerca de 10 anos atuando na área, Bittencourt revela que mesmo tendo vivenciado o sistema hospitalar as vinte e quatro horas do dia, só se sentiu totalmente seguro para encarar a administração de um hospital depois de cinco anos de atividade na área.

O tempo de maturação também é ressaltado por Domingos Fiorentini. Na sua opinião, um profissional só vai absorver toda a complexidade de uma unidade hospitalar depois de oito anos de formado. Com a expe-riência de mais de 30 anos no ensino da administração hospitalar, ele coloca que a graduação não é suficiente para formar um profissional. "São poucos os que saem realmente administradores hospitalares", explica. Ainda, segundo o diretor, é preciso que o próprio aluno elabore uma "vivência da vida", a partir da inteligência emocional, buscando uma visão de mundo mais ampla, com base na criatividade. É bom ainda que ele viaje e conheça outras realidades.

A profissionalização do setor não é apenas uma onda a favor da indústria da educação. Ela carrega também valores imprescindíveis como a ética e o exercício da cidadania. Ao se percorrer o caminho, às vezes tortuosos, das exigências do mercado e da legislação, os profissionais em administração hospitalar têm como desafio maior viabilizar a saúde no qual poucos têm acesso a serviços decentes e verdadeiramente de aten-ção ao ser humano. Profissionalizar a gestão é dar o primeiro passo para ajudar a mudar um quadro nada digno para a saúde do país.

As dúvidas do curso rápido

Um consenso entre profissionais e responsáveis por instituições de ensino da administração hospitalar é de que a carga horária do curso está no limite das necessidades da profissão. Relatam dificuldades em se concluir todo o programa no prazo estipulado e reforçam que seria necessário mais tempo. Mas, os custos para os próprios alunos e a necessidade do mercado faz com que se defina o curso em quatro anos.

Por outro lado, a carência de pro-fissionais no mercado está exigindo a entrada deles em atividade o quanto antes. Com base nesse cenário, a Universidade de Santo André (UniA), na Grande São Paulo, está transformando o seu curso de bacharel em administração hospitalar para a modalidade de tecnólogo. A carga horária foi reduzida de quatro anos para dois anos e meio. A modificação tem provocado dúvidas para os alunos, principalmente para quem é da primeira turma e esperava sair como administrador hospitalar.

Segundo o Ministério da Educação e Cultura (MEC), os cursos de tecnó-logo são cursos superiores como qualquer outro. Eles têm sido um atrativo para quem busca formação de nível superior num tempo mais curto e com custo menores. Em geral, os profissionais e especialistas ouvidos acham difícil a formação adequada do profissional em tempo menor do que o de hoje. "Se for apenas com disciplinas da administração hospitalar pode até ser mais denso que o curso de bacharelado", afirma o pa-dre Niversindo Cherubin.

O presidente do CRA-SP, Roberto Carvalho Cardoso, admite uma demanda pelos tecnólogos e diz até que são bem-vindos. Mas, por sua vez, o conselho decidiu que os cursos de tecnólogo e sequenciais não dão direito ao registro profissional por objetivarem apenas uma área específica do saber. Na opinião de Cardoso, o mais importante é o aluno estar preparado para exercer a profissão e não pensar só na "carteirinha" profissional do conselho. Apesar de soar controverso, Cardoso acredita que a seleção e as exigências do mercado determinarão o futuro desses alunos. Na sua avaliação, os tecnólogos devem ocupar níveis intermediários, operacionais, mas dificilmente al-cançarão cargos mais altos. Dentro desse raciocínio, cabe ao aluno avaliar qual o seu objetivo profissional. "Se ele quer um nível mais alto, o bacharelado é o mais adequado", orienta.

Em tese, o diploma de tecnólogo ainda permite o acesso a cursos de pós-graduação, inclusive ao mestrado e doutorado (strictu sensu). Mas o Ministério da Educação informa que os candidatos devem atender as exigências estipuladas pelas instituições de ensino. Ou seja, são poucas as garantias em troca de um tempo menor nos bancos escolares.

 

O começo

Os cursos de administração hospitalar no Brasil surgiram em 1946. O médico Theófilo de Almeida fez um curso rápido de administração hospitalar na Uni-versidade de Cornwell nos Esta-dos Unidos e ao voltar ao Brasil pediu permissão para ministrar o primeiro curso no país. Esse curso tinha a duração de dez meses e foi realizado durante quinze anos na Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz do Rio de Janeiro. Em seguida, ou-tros cursos de curta duração foram lançados em Belo Hori-zonte, São Paulo e Rio de Janeiro.

Em 1969, o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e de Pesquisas Hospitalares de São Paulo (IPH) iniciou um curso para gra-duados com a duração de um ano. Em 1972, o então diretor do Ins-tituto, Padre Niversindo Cheru-bin, tomou a iniciativa de elaborar um projeto para a criação de um curso regular de graduação em administração hospitalar. Foi solicitado um currículo mínimo para o Conselho Federal de Edu-cação. O currículo foi aprovado e no dia 12 de julho de 1973 era cria-da a habilitação de administração hospitalar.

Enquanto isso, o IPH preparava a instalação da primeira Facul-dade de Administração Hospita-lar do Brasil. Isto ocorreu com a assinatura pelo Presidente da Re-pública do decreto nº 73.264, em 6 de dezembro de 1973. Em dois turnos à noite e 120 vagas, o curso foi reconhecido em fevereiro de 1977. A instalação da Faculdade São Camilo de Administração Hospitalar consolidou a habilitação no Brasil ao unir a teoria à prática dentro dos hospitais.

 

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