AGOSTO/SETEMBRO
DE 2003
NÚMERO 42
ANO 4
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PROJETOS PÚBLICOS
 
Daniel Magnoni

Consultor de RH e membro da Comissão de RH do Sindhosp

Fome zero: de zero a cem quanto tempo?

O projeto Fome Zero, uma das ações sociais de impac-to do governo Lula, foi maciçamente veiculado na mídia nacional e até internacional como uma atuação consciente e madura de um mandato de bases populares e plenamente engajado às grandes causas brasileiras. No entanto, a iniciativa esbarra numa armadilha au-tofágica. Acelerado na maturação e envolvido no redemoinho da urgência marqueteira o programa cresce sem orientação ou fases seqüenciais de implantação e principia um processo de orfandade prematura.

O Brasil de muitas fomes, criadas e agravadas pelos desatinos dos programas de inclusão social de governos passados, não pode delegar a divulgação do Fome Zero a enfoques que parecem compará-lo aos comerciais de automóveis que vendem uma aceleração ultra-rápida, de zero a cem quilômetros por hora. Na morte pela fome, fartamente retratada nos telejornais, permanecem ocultas as causas históricas do problema, que não podem ser sanadas por uma veloz distribuição de comida. Entre essas causas está a desnutrição ca-rencial, crônica pelas doenças decorrentes das deficiências do saneamento básico e de outros fatores nos quais o governo precisa agir.

A fome está presente, há muito tempo, nos centros médicos do País. A desnutrição hospitalar vaga solta. As estatísticas da Sociedade Brasi-leira de Nutrição Parenteral e En-teral apontam alarmantes índices de 48,1% de desnutrição dentre os pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Além de prejudicar a recupe-ração do paciente e, conseqüentemente, ampliar o período de internação, a desnutrição resulta em mais gastos para o sistema de saúde.

Nos processos de educação alimentar, saúde pública e envolvimento social, não precisamos reinventar a roda. Sob pena de julgamento histórico, cabe apreender as expe-riências passadas, desvincular-se de interesses pessoais e da vaidade promocional e aglutinar ações coletivas que possam ser sinergéticas. Ações assistencialistas, preocupadas no aplacar da fome diária, surtem efeitos relativos, talvez mais importantes para o consciente coletivo do que à efetividade programática.

Dessa forma, todo programa de inclusão social e de valorização e apoio à educação e à permanência na escola deve ser ampliado, à medida que educa e oferece aos jovens lazer e alimentação. A inserção da educação e de um acompanhamento nutricional no rol de atuações dos profissionais dos programas de saúde como o Programa de Saúde da Família deve ser medida obrigatória e de fácil execução, bem como a presença de nutricionistas nas unidades básicas de saúde. Além disso, os índices de mortalidade infantil relacionados de forma direta com a desnutrição melhoram de forma contundente quando aumenta o grau de saneamento básico, desde esgoto até água encanada.

O projeto Fome Zero urge medidas de interesse coletivo irmanadas com os interesses científico, epidemio-lógico e social, com a necessidade de envolvimento da comunidade e o simultâneo respeito às ações já em curso, validadas pela implantação. A sociedade clama por decisões objetivas, definidas e estruturadas. Ações básicas de saúde, gerenciamento de processos produtivos e escoativos da produção alimentar, educação básica e nutricional e saneamento são medidas que podem aplacar a fome muito mais pela efetividade, respeitabilidade e compromisso histórico. Nu-trólogos e profissionais da nutrição desejam que o Fome Zero, como meta governamental, seja trocado pelo programa Alimentação Cem: sem vínculos espúrios, sem dúvidas nas intenções e sem muito alarde marqueteiro.

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